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O Custo da Lama: Por que o Leite Sobe na Zona da Mata enquanto o Produtor Luta para não Afundar

Nesta terça-feira, 10 de fevereiro de 2026, o café da manhã do mineiro na Zona da Mata tem um gosto agridoce. Se por um lado o sol começa a aparecer timidamente entre as nuvens após dez dias de chuvas ininterruptas, por outro, o preço do leite nas gôndolas dos supermercados de Juiz de Fora, Ubá e Muriaé ensaia uma alta que deve pesar no orçamento das famílias. Mas, engana-se quem pensa que essa valorização é motivo de comemoração nas fazendas. O que vivemos hoje é o auge do chamado “Custo da Lama”.

O fenômeno é cíclico, mas em 2026 a intensidade da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) trouxe um agravante: o isolamento logístico. Na Zona da Mata, onde o relevo acidentado e as estradas de terra são a regra e não a exceção, o leite tornou-se um artigo de difícil resgate.

O Gargalo Logístico: Quando o Caminhão não Chega

O setor leiteiro é, essencialmente, uma corrida contra o relógio. O leite é um produto altamente perecível e o tanque de resfriamento tem limite. Em cidades como Rio Novo, Descoberto, Guarani e Astolfo Dutra, o cenário dos últimos três dias foi de drama. Com os “estradões” rurais transformados em verdadeiros atoleiros, os caminhões coletores de grandes laticínios não conseguiram chegar a diversas propriedades.

“Tivemos que descartar parte da produção porque o caminhão ficou preso em um bambuzal caído a 5 quilômetros da sede”, relata um produtor de São João Nepomuceno que prefere não se identificar. Esse desperdício na origem gera uma quebra na oferta para a indústria, forçando o aumento do preço pago ao produtor (o “preço de balcão”) para garantir o pouco volume que consegue chegar aos centros de processamento.

A Planilha de Custos em “Modo de Sobrevivência”

O aumento no preço do leite ao consumidor final é o reflexo de uma planilha de custos que explodiu no campo. O “Custo da Lama” não se resume ao frete. Ele envolve:

  1. Suplementação Alimentar: Com o pasto encharcado e degradado pelo excesso de água (o chamado “pasto de água”, com pouca matéria seca), a vaca produz menos. O produtor é obrigado a aumentar a ração e o silagem, cujos preços estão pressionados pelo custo do transporte.

  2. Saúde Animal: O período de chuvas intensas aumenta drasticamente os casos de mastite (inflamação das glândulas mamárias) e problemas de casco devido à umidade constante nos currais e trilhas. O gasto com medicamentos veterinários subiu cerca de 12% nesta quinzena.

  3. Manutenção de Máquinas: Tratores sendo usados para rebocar caminhões de leite sofrem um desgaste severo de embreagem e mecânica, custo que não estava previsto no orçamento de início de ano.

Impacto na Gôndola: O Reflexo para o Consumidor

Nos supermercados da região, o litro do leite longa vida (UHT) já flutua entre R$ 5,80 e R$ 6,50, dependendo da marca. O derivado também sofre. O queijo minas frescal, orgulho da nossa culinária, teve um reajuste médio de 8% nos últimos sete dias.

A indústria de laticínios de Leopoldina e Juiz de Fora argumenta que o custo logístico para buscar o leite no campo subiu quase 25% devido às rotas alternativas e ao maior consumo de combustível nos atoleiros. “Estamos queimando diesel para buscar menos leite. Essa conta acaba chegando no consumidor”, explica um diretor de logística de um laticínio regional.

O Que Esperar para a Segunda Quinzena de Fevereiro?

A tendência para os próximos 15 dias é de manutenção de preços elevados. Mesmo que a chuva cesse, a recuperação das estradas vicinais não é imediata. As prefeituras da Zona da Mata enfrentam um desafio hercúleo para patrolar milhares de quilômetros de vias rurais que foram destruídas pelas enxurradas.

Para o pequeno produtor, o momento é de resiliência. Muitos estão buscando apoio nas cooperativas de crédito para capital de giro, visando atravessar o mês de fevereiro sem fechar no vermelho.

O poder público precisa entender que a estrada rural não é apenas para o morador passar; ela é a correia transportadora da economia mineira. Sem infraestrutura resiliente às chuvas, o “Custo da Lama” continuará punindo o produtor e assaltando o bolso do consumidor final.

Enquanto a lama não seca, a Zona da Mata segue sua rotina de superação, produzindo o leite que alimenta o estado, ainda que a um preço alto demais para quem produz e para quem consome.

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